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A Polícia Civil de Roraima realizou nesta quarta-feira a exumação do corpo de um bebê na comunidade indígena Ticoça, em Uiramutã. A operação faz parte das investigações sobre um caso de estupro de vulnerável que teria começado quando a vítima tinha apenas três anos de idade. A perícia busca coletar material genético para exames de DNA que possam confirmar a paternidade do principal suspeito.
Uiramutã é um dos quinze municípios roraimenses, localizado na região norte do estado, próximo à fronteira com a Venezuela e a Guiana. A cidade integra o conjunto de comunidades indígenas que caracterizam parte significativa da população local. A ação policial contou com apoio da liderança comunitária para garantir o respeito às tradições culturais durante os trabalhos técnicos.
O delegado titular da Delegacia de Pacaraima, Robin Felipe Barreto de Araújo, explicou que a exumação foi judicialmente autorizada e representa uma etapa decisiva para o inquérito.
"Foi realizada hoje a última diligência relacionada a esse caso, com a exumação determinada judicialmente para que a criminalística promova a comparação genética dos restos mortais da criança com o investigado", afirmou o delegado.
Detalhes do caso investigado
Segundo as investigações da Polícia Civil de Roraima, a vítima, hoje com 21 anos, relatou que os abusos sexuais começaram quando ela tinha três anos. O principal suspeito seria seu próprio pai, F.S.S., de 39 anos. A mãe da vítima, E.S.S., de 36 anos, estaria ciente das violências mas teria se omitido durante anos.
Aos 14 anos, em 2019, a jovem engravidou em decorrência dos abusos e deu à luz uma criança. O bebê morreu com apenas dois meses de vida. Este fato agora ganha relevância probatória através dos exames periciais que buscam estabelecer vínculo biológico entre a criança morta e o suspeito.
A perícia envolveu policiais da Delegacia de Pacaraima, peritos do Instituto de Criminalística Perito Dimas Almeida e do Instituto de Medicina Legal. O médico-legista Deyne Morais conduziu pessoalmente os trabalhos in loco na comunidade Ticoça. A Polícia Militar de Uiramutã forneceu segurança operacional durante toda a diligência.
Contexto cultural e repercussão
A presença do tuxaua e do vice-tuxaua da comunidade indígena foi fundamental para assegurar o respeito aos aspectos culturais locais durante a exumação. As autoridades tradicionais acompanharam todo o processo, preservando as tradições da comunidade enquanto garantiam a regularidade dos trabalhos periciais.
O caso ganhou ampla repercussão desde novembro de 2025, quando a vítima procurou o Conselho Tutelar de Uiramutã. Na ocasião, ela revelou os abusos sofridos ao longo dos anos e denunciou que seus pais haviam subtraído sua filha de dois anos. A gravidade das informações levou à rápida atuação conjunta da Polícia Civil, do Ministério Público e do Poder Judiciário.
A prisão do casal investigado ocorreu pouco depois das denúncias iniciais. Agora, com a exumação concluída e os laudos periciais em fase final, o Inquérito Policial entra em sua última etapa antes da remessa ao Poder Judiciário para processamento criminal.
Robin Felipe reforçou a importância da análise genética para o caso.
"Essa análise genética será fundamental para a confirmação de vínculos biológicos. O objetivo é buscar a verdade real por meio da ciência forense", afirmou o delegado.
"O que assegura que todos os elementos necessários para a responsabilização criminal estarão reunidos."
Os exames de DNA compararão material genético dos restos mortais da criança não apenas com o suspeito principal, mas também com outra filha viva da vítima. Esta abordagem dupla busca estabelecer padrões familiares que possam corroborar as acusações apresentadas no inquérito policial.
A Delegacia de Pacaraima tem jurisdição sobre casos ocorridos na região norte de Roraima, incluindo municípios fronteiriços como Uiramutã. A estrutura policial no estado conta com unidades especializadas para atendimento às comunidades indígenas, considerando particularidades culturais e linguísticas específicas dessas populações.
Casos envolvendo violência sexual contra crianças e adolescentes têm recebido atenção prioritária das autoridades roraimenses nos últimos anos. O estado mantém programas interinstitucionais que envolvem polícia, Ministério Público, Judiciário e órgãos de assistência social para enfrentamento desse tipo de crime.
A perícia criminal em Roraima opera através do Instituto Perito Dimas Almeida, responsável por exames técnicos em todo o território estadual. O instituto possui equipes treinadas para atuação em áreas remotas e comunidades indígenas, adaptando protocolos forenses às condições locais sem comprometer o rigor científico.
A atuação policial em casos complexos como este segue protocolos estabelecidos nacionalmente mas adaptados às realidades regionais. A coleta de evidências genéticas em situações envolvendo exumação requer autorização judicial prévia e acompanhamento rigoroso das cadeias de custódia.
O sistema de justiça roraimense tem desenvolvido mecanismos para processamento ágil de crimes graves contra vulneráveis. A colaboração entre polícia investigativa, perícia técnica e órgãos do sistema de justiça busca reduzir prazos entre a denúncia e a responsabilização criminal dos acusados.
Comunidades indígenas como Ticoça mantêm relações específicas com as instituições estatais, muitas vezes mediadas por suas lideranças tradicionais. Esta dinâmica requer abordagens sensíveis por parte das autoridades policiais e periciais durante investigações criminais.
A proteção integral da criança e do adolescente está prevista tanto na legislação nacional quanto em protocolos específicos para populações indígenas. Os órgãos roraimenses buscam equilibrar aplicação da lei com respeito às culturas tradicionais em todas as etapas processuais.














