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O município de Bonfim, na fronteira com a Guiana, recebe um projeto de extensão que ensina artesanato e empreendedorismo para mulheres da comunidade. A iniciativa, chamada Mãos que Criam, é desenvolvida pelo Campus Bonfim do Instituto Federal de Roraima e busca fortalecer a geração de renda local através da economia criativa.
As atividades começaram em março deste ano e já atendem 25 participantes, a maioria mulheres que buscam qualificação profissional e novas oportunidades econômicas. O curso oferece formação em técnicas artesanais tradicionais e contemporâneas, aliadas a noções de gestão financeira e marketing digital. A proposta inclui o resgate de saberes culturais regionais e sua transformação em produtos com valor comercial.
A coordenadora do projeto, professora Maria Silva, explica que a metodologia combina aulas teóricas e práticas. As participantes aprendem desde o planejamento da produção até a comercialização dos itens. O objetivo é criar uma rede de artesãs capacitadas para atuar no mercado formal e informal, com autonomia e conhecimento técnico.
Bonfim, localizado a 125 quilômetros da capital Boa Vista, tem cerca de 12 mil habitantes e enfrenta desafios econômicos comuns aos municípios do interior roraimense. A economia local depende principalmente do comércio fronteiriço e da agricultura familiar. Projetos como o Mãos que Criam surgem como alternativa para diversificar as fontes de renda e reduzir a vulnerabilidade social.
Estrutura do curso e módulos oferecidos
O programa está dividido em três módulos principais que totalizam 120 horas de formação. O primeiro aborda técnicas artesanais específicas da região, como trabalho com fibras naturais, cerâmica e bordados inspirados na cultura indígena e fronteiriça. As matérias-primas utilizadas são, sempre que possível, de origem local e sustentável.
O segundo módulo foca no empreendedorismo, com conteúdos sobre planejamento de negócios, cálculo de custos, precificação e gestão de estoque. As participantes aprendem a transformar seu conhecimento técnico em empreendimentos viáveis. O terceiro e último módulo trata da comercialização, incluindo estratégias de venda presenciais e online, uso de redes sociais e plataformas digitais.
As aulas acontecem duas vezes por semana no campus do IFRR em Bonfim, que cede espaço e equipamentos para as atividades. Além dos encontros presenciais, o projeto mantém um grupo virtual onde as alunas trocam experiências e recebem orientação contínua dos professores. A previsão é que a primeira turma conclua a formação em agosto, com uma mostra de produtos aberta à comunidade.
Um dos diferenciais do Mãos que Criam é a integração com outras iniciativas do instituto federal. Estudantes dos cursos de administração e design auxiliam as artesãs no desenvolvimento de embalagens, identidade visual e planos de negócios. Essa articulação entre extensão, ensino e pesquisa amplia o impacto social do projeto.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que Roraima tem uma das menores taxas de formalização do trabalho artesanal no Norte do país. Apenas 18% dos artesãos atuam com registro legal, enquanto a média nacional é de 35%. Projetos de qualificação profissional são considerados estratégicos para mudar esse cenário.
Impacto social e perspectivas futuras
As participantes relatam que o projeto já trouxe mudanças significativas para suas rotinas. Muitas nunca haviam tido acesso a formação profissional específica e agora veem no artesanato uma possibilidade concreta de complementar a renda familiar. Algumas começaram a produzir peças durante o curso e já realizam vendas informais na comunidade.
A professora Maria Silva destaca que o empoderamento econômico das mulheres tem efeitos que vão além da questão financeira. Com maior autonomia, elas ganham voz nas decisões familiares e comunitárias, fortalecendo seu papel social. O resgate de técnicas artesanais tradicionais também contribui para a preservação da cultura regional, ameaçada pela homogeneização dos produtos industriais.
O Campus Bonfim planeja expandir o projeto para outras comunidades do município e regiões vizinhas. Há conversas em andamento com a prefeitura local e com associações comunitárias para estabelecer parcerias. A ideia é criar pontos de venda fixos nos principais centros comerciais da cidade e feiras itinerantes nas comunidades rurais.
Para o próximo ano, a coordenação pretende incluir novos módulos sobre sustentabilidade ambiental e economia circular. O foco será no aproveitamento integral de matérias-primas e na redução de resíduos na produção artesanal. Outra meta é formalizar uma cooperativa ou associação das artesãs formadas pelo projeto, facilitando o acesso a editais públicos e linhas de crédito.
O reitor do IFRR, João Santos, afirma que iniciativas como o Mãos que Criam estão alinhadas com a missão institucional de promover desenvolvimento regional. O instituto mantém projetos semelhantes em outros campi do estado, sempre adaptados às realidades locais. Em Pacaraima, na fronteira com a Venezuela, há um programa voltado para o artesanato indígena. Em Caracaraí, o foco é a produção com fibras de buriti.
O secretário de Trabalho e Bem-Estar Social de Roraima, Carlos Mendes, reconhece a importância dessas ações para a geração de emprego e renda. O governo estadual mantém programas de apoio ao artesanato, como o Roraima Feito à Mão, que oferece capacitação e espaços de comercialização. A integração entre políticas públicas e projetos de extensão universitária pode ampliar os resultados alcançados.
Enquanto isso, as 25 mulheres do Bonfim seguem com as aulas, tecendo não apenas peças artesanais, mas também novas perspectivas para suas vidas. O projeto Mãos que Criam mostra como a educação profissional pode ser ferramenta de transformação social, especialmente em regiões fronteiriças que enfrentam desafios econômicos estruturais.











