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O Instituto Nacional do Câncer (Inca) apresentou nesta terça-feira (5) as novas Diretrizes para a Vigilância do Câncer Relacionado ao Trabalho, versão 2026. O documento atualizado chega 14 anos após a primeira publicação e traz mudanças significativas para a saúde ocupacional no país.

A nova versão, lançada durante seminário na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), foi desenvolvida para ser uma ferramenta prática na rotina dos profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS). O objetivo é facilitar a identificação e notificação de casos de câncer com origem em exposições profissionais.

Versão mais prática e objetiva

"Ela é uma ferramenta que deve ser usada na rotina desses profissionais", explica a médica Ubirani Otero, do Inca. A nova edição foi condensada de 10 para 8 capítulos, com linguagem mais direta e exemplos práticos que ajudam na aplicação do recordatório ocupacional, técnica que investiga o histórico de exposições no trabalho.

"É uma versão mais enxuta, objetiva, integrada com alguns exemplos práticos, alguns casos clínicos que o profissional pode ler ali, identificar e saber como fazer um recordatório", detalhou a especialista.

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Expansão para 50 tipos de câncer

Um dos principais avanços da nova versão é a ampliação da lista de cânceres relacionados ao trabalho. As diretrizes passam de 19 para 50 tipos, seguindo os parâmetros atualizados da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), órgão vinculado à Organização Mundial da Saúde.

A epidemiologista considera essa expansão um "avanço enorme" que permite maior visibilidade para casos que antes ficavam na invisibilidade.

Cacique Raoni internado em Sinop com hérnia diafragmática

"Desde que a nossa área foi formada, em 2004, até hoje a gente já teve muitos avanços para que os casos de câncer no trabalho não fiquem na invisibilidade", afirmou.

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Cânceres ocupacionais mais comuns

Entre os tipos de câncer relacionados ao trabalho estão os hematológicos (linfomas, leucemias, mielomas), câncer de bexiga, pulmão e pele, este último especialmente relevante por representar 30% de todos os casos de câncer no Brasil.

"O câncer de pele está muito relacionado ao trabalho, porque grande número de pessoas trabalham expostas ao sol, como os ambulantes, empregados da construção civil, os guardas de trânsito, agentes dos Correios, pescadores, agricultores", lembra Ubirani Otero.

A lista também inclui cânceres de mama, ovário, próstata, colorretal, fígado e diversos tipos de câncer da cavidade oral, como língua, boca e laringe.

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Prevenção e políticas públicas

As diretrizes têm como objetivo final permitir que profissionais de saúde identifiquem indústrias e ocupações de risco em seus territórios, possibilitando a implementação de medidas preventivas. O reconhecimento de padrões regionais pode levar a buscas ativas sobre agentes causadores.

"Aí você vai encontrar que foram expostos à sílica, ao amianto, trabalharam por tantos anos em uma determinada ocupação que expunha eles a esses fatores de risco", exemplifica a médica.

Ela destaca que mesmo fatores como tabagismo podem ter efeito sinérgico com exposições ocupacionais, aumentando o risco de doenças como câncer de pulmão.

"Você tem condições, mesmo ele sendo fumante, de saber que existe um fator sinérgico [uma interação entre dois ou mais agentes]"

Durante o seminário, estados e municípios já capacitados pelo Inca apresentaram experiências de notificação baseadas nas diretrizes anteriores. Com a versão atualizada, espera-se que o trabalho de vigilância seja significativamente facilitado em todo o país.

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