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A Assembleia Legislativa de Roraima intensifica ações de conscientização durante o Maio Amarelo, mês dedicado à prevenção de acidentes de trânsito no estado. Parlamentares destacam leis estaduais que buscam educar condutores e proteger profissionais como mototaxistas e motoboys. A iniciativa ocorre em meio a números preocupantes do Departamento Estadual de Trânsito, que registrou aumento nas mortes mesmo com queda no total de ocorrências.
Conforme dados do Detran-RR, o ano de 2025 teve 2.345 acidentes em Roraima, com 178 óbitos. O número representa uma elevação superior a 20% nas vítimas fatais em comparação com 2024, quando 146 pessoas morreram em 4.104 sinistros. As infrações mais comuns no período incluíram falta do cinto de segurança (4.699 autuações), veículo sem licenciamento (1.965), condução sem CNH (1.819) e uso de celular ao volante (1.171).
A Secretaria Estadual de Saúde contabilizou 7.801 vítimas de trânsito em 2025, sendo 566 em acidentes com bicicleta e 333 por atropelamento. No Pronto-Socorro Francisco Elesbão, referência em Boa Vista, as entradas por esse motivo cresceram de 6.408 em 2024 para números que seguem alarmantes. Até março de 2026, já foram registradas 1.413 vítimas, com destaque para 1.124 envolvendo motocicletas.
Leis estaduais para educação no trânsito
A ALERR tem como base normativa a lei estadual nº 406, de 2003, que determina a inclusão da disciplina Educação para o Trânsito no currículo do ensino fundamental e médio das escolas públicas de Roraima. A norma mais recente, de número 2.225/2025, institui a Política de Incentivo à Segurança de mototaxistas, motoboys e motogirls.
Essa política prevê a veiculação de campanhas educativas de prevenção a acidentes e a criação de programas de acompanhamento e tratamento médico para profissionais vítimas de acidentes de trabalho. O foco é proteger uma categoria vulnerável que movimenta parte significativa da economia local, especialmente na capital Boa Vista e nos 15 municípios roraimenses.
Jorge Everton, presidente em exercício da Assembleia Legislativa, enfatizou que a conscientização dos condutores precisa andar junto com a atuação do poder público. Ele afirmou que não adianta criar leis e apoiar campanhas se cada cidadão não fizer sua parte. O respeito às normas de trânsito é fundamental, assim como o reforço de ações educativas contínuas.
Não adianta criarmos leis e apoiarmos campanhas se cada cidadão não fizer a sua parte. O respeito às leis de trânsito é fundamental, assim como o reforço de ações de conscientização. Com a união de todos, será possível reduzir o número de acidentes e, consequentemente, de mortes
O parlamentar lembrou que Roraima possui características específicas, como estradas que ligam a capital a municípios fronteiriços como Pacaraima (fronteira com a Venezuela) e Bonfim (fronteira com a Guiana), onde o fluxo de veículos exige atenção redobrada. A BR-174, principal via federal que corta o estado, também concentra parte dos acidentes graves.
História de vida alterada por imprudência
Valderles dos Santos, autônomo de 38 anos, conhece na pele as consequências da imprudência no trânsito. Há quase um ano, ele trabalhava como mototaxista para complementar a renda quando um motociclista visivelmente embriagado invadiu a preferencial e colidiu frontalmente com sua moto na Avenida João de Barro, em Boa Vista.
O impacto causou fraturas múltiplas na mandíbula, no braço e na mão direita. Lesões no plexo braquial, conjunto de nervos responsáveis pelos movimentos e sensibilidade do pescoço, ombro e membros superiores, fizeram com que Valderles perdesse parte da mobilidade do braço. Uma passageira que levava no momento do acidente também sofreu ferimentos graves.
Após mais de um mês internado no Hospital Geral de Roraima, o autônomo desenvolveu ansiedade e passou a ter receio do trânsito. Sua vida mudou completamente, tanto no aspecto financeiro quanto emocional. Ele tinha outra fonte de renda e hoje não pode mais trabalhar com moto devido à limitação física.
Valderles segue em tratamento fisioterápico desde a alta hospitalar, mas estima que ainda precisará de cerca de dois anos para tentar recuperar a mobilidade total. Sua mensagem é clara: por imprudência, podemos prejudicar a vida de alguém de maneira irreversível. É preciso dirigir com responsabilidade, respeitar a sinalização e jamais conduzir veículos sob efeito de álcool.
O caso ilustra um padrão comum nos acidentes roraimenses. Muitas vítimas são trabalhadores que usam motocicletas como ferramenta de trabalho, seja para entregas, transporte alternativo ou deslocamento entre bairros periféricos da capital e zonas rurais.
Fisioterapia como aliada na recuperação
A fisioterapia se mostra essencial na reabilitação de vítimas de acidentes de trânsito em Roraima. Paulo Mello, fisioterapeuta com experiência no atendimento a pacientes do sistema público de saúde, explica que o acompanhamento profissional é determinante para uma recuperação mais rápida e eficaz.
Segundo o especialista, a fisioterapia contribui para que o paciente tenha o mínimo possível de sequelas. O número de sessões depende do tipo de lesão, sendo que quanto mais simples, menor o tempo necessário. O papel do profissional é acelerar esse processo e proporcionar qualidade de vida, permitindo que a pessoa retome suas atividades o quanto antes.
Mello destaca a importância de iniciar o tratamento precocemente, atuando nos três níveis de atenção. No nível terciário, por exemplo, o atendimento ocorre em pacientes internados em UTI. Nesses casos, a atuação é fundamental para evitar sequelas de imobilidade, como perda de massa muscular e de amplitude de movimento.
O fisioterapeuta ressalta que muitas vítimas chegam aos serviços de saúde com lesões complexas que exigem meses ou anos de acompanhamento. A rede pública do estado, com unidades em Boa Vista e alguns municípios maiores, tem buscado ampliar o acesso a esses tratamentos, mas ainda enfrenta limitações de estrutura e profissionais.
O movimento Maio Amarelo foi criado pela Organização das Nações Unidas em 2011 com foco na educação e conscientização para um trânsito mais seguro. Em Roraima, a campanha ganha contornos locais, considerando as particularidades das vias estaduais, o alto número de motociclistas e os desafios de fiscalização em um território com dimensões continentais e fronteiras internacionais.
Para os próximos anos, a expectativa é que as ações integradas entre ALERR, Detran-RR, Secretaria de Saúde e órgãos municipais possam reverter a tendência de aumento nas mortes. A educação nas escolas, o fortalecimento da fiscalização e a conscientização permanente aparecem como pilares dessa estratégia que busca preservar vidas em todas as regiões do estado.











